Professor você trabalha ou só dá aulas?

“Trabalhar não é só aplicar uma série de técnicas, conhecimentos e habilidades para atingir a satisfação das próprias necessidades; trabalhar é fundamentalmente fazer-se a si mesmo transformando a realidade”

                                                                          (Martín-Baró, 1998)

            Quem é que nunca ouviu a clássica pergunta: “Professor, você trabalha ou só dá aulas? Pois, pensando nela e aproveitando as comemorações do dia do Trabalhador, escrevo-lhes este texto.

Sabe-se que o dia do Trabalho é comemorado no dia 1º de maio, data esta marcada por uma reunião de milhares de trabalhadores que reivindicavam a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias, em 1886 na cidade de Chicago (EUA). No Brasil, com a vinda dos imigrantes europeus e suas ideias sobre leis trabalhistas e princípios organizacionais, esse dia foi decretado como feriado em 1924, pelo presidente Arthur Bernardes. Até a era Vargas esse dia era considerado um dia de protestos, acompanhado de greves e manifestações, entretanto, o astuto Getúlio Vargas passou a utilizar-se desse dia como uma data de anúncios de benefícios aos trabalhadores, transformando-o em “Dia do Trabalhador”, desta forma a data não mais era de protestos e sim de comemorações, o que vigora atualmente.

Voltando a falar do professor, dar aulas é um trabalho indispensável à sociedade, uma vez que, é com o trabalho árduo do professor que se formam outros profissionais das mais diversas áreas. Muitos fazem a idéia de que um professor adentra a sala, aplica seu conteúdo, tira dúvidas e ao soar um sinal ajeita seus pertences e vai pra casa, lindo, leve e solto. Ledo engano! As aulas são, com antecedência, minuciosamente pensadas e preparadas. Por exemplo, enquanto você assiste a um filme como entretenimento, um professor se atenta a questões pedagógicas e qual a melhor forma de utilizá-lo em sala de aula. Muitas vezes quando você está indo dormir, o professor está indo estudar e pesquisar para as aulas do dia seguinte. O professor está sempre imaginando meios e maneiras de exemplificar seus conteúdos, como forma de melhorar a assimilação das aprendizagens. Digo de experiência própria. Deparei-me várias vezes com ideias que poderiam dinamizar os conteúdos, além das pesquisas, passo horas em frente ao computador buscando formas de melhorar as aulas e motivar os alunos, a fim de despertar o prazer em aprender. Amo quando consigo provocar nos pequenos a vontade em aprender. É fascinante quando se desperta o gosto pela leitura, por exemplo. O aluno é solo fértil, onde nós, professores, semeamos nossas melhores sementes. Essa relação é cultivada a cada dia, com respeito e dedicação, um ensinando e aprendendo com o outro, crescendo e caminhando juntos. Enfim, o trabalho do professor não se resume a técnicas, horários ou tampouco a sala de aula. O maior significado deste ofício é mediar transformações, mediar conquistas…

“O professor é representante do movimento de mudança social e das grandes aspirações da humanidade”                                                     (Jiron Matui, 1995)

Pode-se concluir, desta forma que, o professor, não só trabalha, mas como também é peça fundamental na realização de sonhos e conquistas. Ajuda-nos a alçar vôos antes inimagináveis.

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Infância Contemporânea… Compreenda antes de rotular.

Deparei-me, esta semana, com o seguinte enunciado: Cresce 75% uso de drogas para hiperatividade, fiz algumas leituras sobre o tema e resolvi compartilhar, afinal, este é um assunto de suma importância e deve estar ao alcance de todos. Esta foi uma pesquisa, inédita, realizada pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e revela uma assustadora realidade. O consumo de metilfenidato – encontrada com nomes comerciais de Ritalina, Ritalina LA ou Concerta – entre crianças de 6 a 16 anos cresceu 75% no país, entre os anos de 2009 e 2011. Esse levantamento foi realizado com bases nos dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). Tal medicamento age sobre o córtex pré-frontal, parte do cérebro localizada na testa que, segundo estudos, ao ser estimulado este lóbulo a pessoa consegue manter o foco e a atenção. É fato que esta patologia está presente em alguns casos, entretanto, será que está correto esse rótulo indiscriminado. Será mesmo que crianças ativas possuem o TDAH. De acordo com especialistas, este diagnóstico ocorre por meio da observação de comportamentos de impulsividade, inquietação, dificuldade de aprendizagem, ansiedade etc. Ele depende muito de relatos, de pais e professores, depende também de vários quesitos e a criança deve se encaixar em quase todos eles e ainda, o diagnóstico leva cerca de 6 meses para ser concluído, não há um exame laboratorial para detectá-lo.

            Vamos refletir um pouco…

Se pensarmos na criança e o meio que está inserida, talvez possamos adquirir um outro olhar sobre esta patologia, uma vez que a prática pedagógica é dominante e alfabetiza a criança, cada vez mais cedo, sem o brincar – primordial para a infância – este “brincar” só é permitido nas aprendizagens e em um contexto dirigido, deixando de lado toda a criatividade e liberdade que o brincar por brincar traz ao indivíduo. Atualmente, a criança vive cercada por grades, muros, tendo que se habituar a pequenos espaços, desta forma ela vai se condicionando e não há espaço para toda sua energia. Antigamente o chão era o limite, as crianças brincavam nas ruas, pulavam, corriam, subiam, caiam, os quintais eram acolhedores, cheios de “cantinhos” onde se deliciavam em sua imaginação, ora inventando situações, ora imitando os adultos a sua volta. Havia uma liberdade e ali toda energia era esgotada. A preocupação com a alfabetização era diferente, havia se um tempo de maturidade. Hoje há uma sobrecarga nos afazeres, há uma preocupação excessiva com a alfabetização precoce, há uma diminuição no espaço e no tempo livre. A infância, hoje, me parece vedada, ameaçada por turbilhões de elementos que fazem parte da fase adulta. Pais e professores, digo de experiência própria, não sabem o que fazer com tanta energia, com crianças tão ativas dentro de um contexto tolhedor, um sistema que mata de maneira cruel toda criatividade e liberdade de ação. E infelizmente somos induzidos, por ignorância (no sentido de desconhecimento) a rotular este ou aquele que não para, que corre o tempo todo, que literalmente “sobe no ventilador” ou mesmo aquele que está no mundinho dele, apático. Em alguns casos, vê se crianças ansiosas em demasia, pela projeção dos pais: “meu filho vai ser isto ou aquilo”, “meu filho deve sempre se sobressair”, “o mundo está tão competitivo que meu filho deve ser o melhor”, “nem pensar em tirar nota baixa, ai dele”… Infelizmente, nós, sem nos dar conta, podemos causar alguns problemas de comportamento: agressividade, impulsividade, inquietação etc.

            Não quero com este discurso eliminar as possibilidades de uma criança ser hiperativa, pelo contrário, há, segundo estudos, uma patologia e esta por sua vez deve ser diagnosticada e tratada (por profissionais capacitados para tal), pois sabe-se que causa muito sofrimento a quem acomete e a quem convive com o portador do transtorno. O que é relevante salientar é a questão do diagnóstico impreciso e da medicação indiscriminada. A quem pense que é mais fácil medicar/domesticar do que procurar entender, compreender o que se passa. É cômodo ir à farmácia e drogar nossas crianças rotuladas como diferentes, deixá-las calmas e “domadas”, a fim de encaixá-las nesta nova concepção de infância, neste novo perfil social.

Transtorno Desafiador Opositivo

Atualmente, ouve-se relatos de pais, a “beira de um ataque de nervos”, que não sabem o que fazer com “temperamento” do filho. A criança é agressiva, desafiadora, respondona, implicante, não aceita críticas, é debochada e ainda responsabiliza os outros por seus erros. Se você identificou em seu filho algumas dessas características, saiba que, dependendo do grau e persistência com que ocorre esse tipo de conduta, provavelmente essa criança pode ser portadora do Transtorno Desafiador Opositivo, entretanto, esse diagnóstico é feito apenas por especialistas e vale ressaltar que as características prevalecem por tempo indeterminado, o que não ocorre se for apenas uma fase de desenvolvimento infantil, afinal ouvimos desde pequenos que a partir dos seis anos de idade a criança passa por um “período de chatice”.

            O TDO (Transtorno Desafiador Opositivo) atinge, principalmente, a faixa etária de 7 a 10 anos e segundo estudos, acomete de 2 a 16% das crianças em idade escolar. Cada um tem seu temperamento, tem um “jeitinho só seu” e os pais sabem disso e por conhecerem bem os filhos criam métodos para lidar com as várias fases do desenvolvimento infantil, contudo, no caso de uma criança com TDO acaba havendo um desgaste emocional na relação pais e filhos, gerando angústias e por vezes até culpas no quesito educação. O TDO desafia e “testa” o adulto o tempo todo, podendo ou não apresentar problemas na escola. Muitos são bons alunos, pois entendem que seu comportamento não é socialmente aceitável, então conseguem “segurar” os impulsos durante horas. Em casa, lugar onde se sentem seguros e amados, não há necessidade de “segurar” tais impulsos e assim começa o ciclo de desobediência, irritabilidade, provocações, agressividade etc. Os pais, por sua vez, sentem-se esgotados, irritados e incapazes de lidar com tudo isso.

            Por isso, descrevo algumas dicas, a fim de possibilitar que os pais assumam novamente o controle, diminuindo desta maneira o desgaste natural que proporciona este transtorno.

            Estabeleça um ambiente seguro, a criança deve saber que não importa o quanto ela fique incontrolável, ainda sim você irá amá-la.         

            Determine rotinas e siga-as, a rotina faz com que a criança aprenda que há regras e horários que precisam ser seguidos, a organização é primordial para quem possui o TDO.

            Estabelecer limites é essencial para qualquer criança, principalmente, se ela apresentar sinais do Transtorno Desafiador Opositivo, determine comportamentos que não são adequados, liste-os (peça ajuda para seu filho) e explique que a cada quebra de regra há uma consequência. Lembre-se de cumprir com esses combinados toda vez que houver quebra de regras, caso contrário ele vai se sentir no controle novamente.

            Na medida do possível, mantenha um tom de voz gentil, suave, firme e autoritário (no sentido de autoridade).

            Não se esqueça o TDO é uma desordem, seu filho pode até querer obedecer, entretanto, ele não consegue manter esse autocontrole, por isso, os pais podem ajudar controlando o ambiente. Quando se muda o olhar fica mais fácil colocar em prática mecanismos que auxiliarão a criança e a família a conviver em harmonia.

Cuidados com nossa melhor amiga – A voz!

Nesta semana comemora-se o dia mundial da voz, mais precisamente no dia 16 de abril. Essa data, que é reconhecida desde 1999, representa uma oportunidade única de disseminar o conhecimento, orientando a população, além de promover ações no âmbito da saúde, auxiliando no encaminhamento adequado de possíveis problemas.

            Sabe-se que a interação social e profissional é feita a partir da comunicação, sendo a voz um de seus aspectos fundamentais. Entretanto, notamos sua importância no momento em que ficamos afônicos (sem voz) ou com algum tipo de alteração, como por exemplo: a rouquidão / fadiga vocal, por isso devemos estar atentos, uma vez que a voz está diretamente ligada à nossa saúde. Alguns cuidados são essenciais para que a voz esteja sempre saudável, entre eles está uma boa noite de sono, a alimentação também exerce papel relevante para uma boa voz, ingerir bastante água, essa é a única forma de manter hidratadas as cordas vocais, evitar alimentos apimentados ou achocolatados também contribuem para a saúde da voz. Outro fator importante é a emoção, sem perceber refletimos na voz nosso “estado de espírito” (tristezas, alegria, raiva etc.).

            Desta maneira, fica fácil perceber que quando estamos bem, nossa voz também está. Vale lembrar que o uso em demasia requer um repouso de 5 minutos (se possível) ou quando perceber que algo está errado, preserve-a. Evite abusos vocais: falar alto demais, sobretudo, em locais com muito ruído, sussurros, tosses e pigarros. Cuidado com as imitações, ao imitar vozes de desenhos animados ou mesmo cantores preferidos estamos expondo a voz a um esforço extra, o que pode ser prejudicial ás cordas vocais. Hidrate-se com freqüência, perceba o que é prejudicial à sua voz: ar condicionado, gelado, quente… Modere, se possível evite!

            Procure controlar a intensidade da voz, assim como sua velocidade, coma maçãs, elas são ótimas aliadas para uma boa voz. Quando o ar estiver muito seco procure fazer inalação a vapor, respire pelo nariz (ele aquece, umidifica e filtra o ar), tenha uma boa postura corporal, ela auxilia na voz saudável. O estresse também faz mal, bem como o fumo e as bebidas alcoólicas, eles são responsáveis por 90% dos casos de cânceres de laringe.

            Sorria para as pessoas, cumprimente-as, seu dia se tornará mais leve e agradável, aqueça a voz vibrando ponta de língua, fazendo um R no meio de palavras, por exemplo: parrrrrede).

            Caso haja dúvidas, procure um especialista: fonoaudiólogo ou um médico otorrinolaringologista e nunca se esqueça: A voz é sua melhor amiga! Por isso, ouça o que ela quer lhe dizer…

Nosso ilustre e revolucionário escritor: Monteiro Lobato

É celebrada, no dia 18 de abril, a literatura infantil brasileira, esta foi uma homenagem feita a Monteiro Lobato, nosso ilustre e revolucionário escritor, que por sua vez transformou a indústria literária ao criar histórias que aguçaram, e aguçam ainda hoje, o imaginário infantil, que até então estavam acostumadas a obras cheias de preceitos éticos e morais. Foi Lobato que, fazendo a herança do passado submergir no presente encontrou uma “fórmula mágica” para encantar nossas crianças. Todo esse sucesso veio a partir de elementos bem simples, do cotidiano da molecada: a realidade familiar e com essa realidade veio também um fantástico mundo de personagens surreais, culminando nessa mistura maravilhosa que conhecemos. Lobato se preocupava em levar as crianças o conhecimento das tradições e um conhecimento do acervo herdado que lhes caberia transformar, questionar, descobrir e renovar.

            José Renato Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, interior de São Paulo, no dia 18 de abril de 1882. Já na infância demonstrava sinais de sua paixão pelos livros e passou a escrever para jornais da escola. Uma curiosidade ocorreu na infância de Monteiro Lobato, no ano de 1895: ele foi reprovado em uma prova oral de português, isso o levou a mergulhar nos livros e consequentemente surge um interesse grandioso pela Língua Portuguesa. Na adolescência encarou duas perdas irreparáveis, seu pai – o fazendeiro José Bento Marcondes Lobato – e um ano depois, sua mãe – dona Augusta Monteiro Lobato. Por influência do avô, Monteiro Lobato formou-se em Direito (1904), pela Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo. Neste período dividiu-se entre suas duas paixões: a escrita e o desenho. Com o diploma em mãos, partiu para Areias (SP), onde foi nomeado promotor público, entretanto, trocou de lar novamente devido a morte de seu avô, que o deixou como herança uma fazenda em Buquira (atualmente, Monteiro Lobato). Acompanhado de sua mulher, Maria da Pureza de Castro Natividade, e inspirado pelos ares do campo, Lobato inicia sua jornada como ilustre escritor.

            Urupês (1917) foi considerada uma de suas obras mais importantes, nessa publicação encontram-se dois artigos do autor, publicados anteriormente no jornal O Estado de São Paulo, o que gerou na época uma respeitável repercussão, além de um conjunto de contos. O primeiro deles: “Velha Praga”, onde Lobato denuncia as queimadas do Vale do Paraíba e o segundo, chamado de Urupês, onde o autor define e caracteriza o caboclo, o “Jeca Tatu”, revelando como ser um ignorante, preguiçoso, sem nenhum senso de arte ou mesmo desejo de permanência e de realização. Personagem que se destacou por ser totalmente diferente dos caipiras e indígenas idealizados por autores consagrados, como por exemplo, José de Alencar. Todavia, seu destaque na literatura ficou por conta da saga do Sítio do Pica-pau Amarelo, iniciada em 1921, com o lançamento de Narizinho Arrebitado que, atualmente, transcendeu o papel e virou adaptação de televisão, seja seriado ou desenho animado. Escreveu também O saci (1921), O marquês de Rabicó (1922), A caçada da onça (1924), Viagem ao céu (1932), Novas Reinações de Narizinho (1933) e O Pica-Pau Amarelo (1939). Todas essas histórias desenvolviam-se em um local imaginário O sítio do Pica-pau Amarelo. Uma de suas grandes personagens fora Emília, que nasceu boneca e evoluiu tanto que virou gente. Trata-se do personagem alter ego de Monteiro Lobato. Curiosa e faladeira, dizia tudo aquilo que sentisse vontade. Lobato muitas vezes agia de maneira polêmica, cujas críticas geravam certo desconforto.  Anita Malfatti foi criticada ao utilizar-se de influências do futurismo nas obras artísticas em seu artigo Paranóia ou Mistificação? Lobato fora chamado de conservador pelos modernistas. Se não bastasse, recentemente, suas obras foram questionadas pelo teor racista. Para o professor da Unesp, João Luís Ceccantini, o autor, embora a frente de seu tempo, apresentava contradições de sua época ao utilizar-se de representações que, hoje, são consideradas preconceituosas. Contudo, segundo o professor, não se deve julgar histórias de um século anterior com os olhos de hoje. Na política foi definido como um intelectual engajado em causas nacionalistas, publicou América (1932) e iniciou uma campanha nacionalista pela produção de aço e petróleo. Simpatizante comunista publicou também O escândalo do Petróleo e do Ferro (1936). Crítico de costumes com notas de sarcasmo e caricatura, entretanto sua marca era o nacionalismo e o interesse pelos problemas do país. Faleceu em São Paulo, no dia 4 de julho de 1948, aos 66 anos de idade, em decorrência de um derrame. Deixou um legado composto por 30 volumes, conquistando desta forma um lugar indisputável na literatura brasileira.

Brincar de Gente Grande – Pensar e agir como adulto virou moda…

Atualmente, o universo infantil parece estar mudando, entre roupa e brinquedo a preferência nacional mirim, ao contrário do que se imagina, é pela roupa, da moda e de grife se possível. Assim mostra uma pesquisa realizada por conceituado canal de TV a cabo que, a maioria da meninada afirma que estar na moda é fundamental, além de se pensar em namorar (fato que no passado causava repudia), ser rica e famosa na fase adulta. A criança, hoje, desconhece as gerações de outrora, brincar faz parte do cotidiano, entretanto, não é uma questão primordial.

                   De acordo com Winnicott (1975, p.80) “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)”. Entende-se, por meio do autor, que a brincadeira desenvolve a criatividade, utilizando-se imprescindívelmente da personalidade, permitindo assim o autoconhecimento.

                 Para Froebel (1912,p.54-55): “Brincar é a fase mais importante da infância do desenvolvimento humano neste período – por ser autoativa representação do interno – a representação de necessidades e impulsos internos”. De acordo com a citação o brincar é algo essencial e não deve ser deixado de lado, como ocorre na contemporaneidade.

                   Froebel (1912) descreve ainda que:

 

(…) A brincadeira é a atividade espiritual mais pura do homem neste estágio e, ao mesmo tempo, típica da vida humana enquanto um todo – da vida natural interna do homem e de todas as coisas, ela dá alegria, liberdade, contentamento, descanso externo, paz com o mundo… A criança que brinca sempre, com determinação autoativa, perseverando, esquecendo sua fadiga física, pode certamente tornar-se um homem determinado, capaz de autosacrifício para a promoção de seu bem e de outros (…) (FROEBEL,1912,p.55)                                      

 

                   Por isso, a brincadeira faz parte do desenvolvimento cognitivo, psicomotor, cultural e social da criança, faz com que a criança se libere e liberte suas emoções, sendo assim, esta fase, não deve ser interrompida ou não vivenciada.

                   Contudo, vê-se que, atualmente, a boa aparência tornou-se prioridade na infância. Neste sentido, a psicóloga paulistana Ceres Alves de Araújo, professora da Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, diz que para a criança andar na moda virou obrigação. Nesse contexto, ela deve vestir-se como o resto do grupo, a fim de assegurar seu lugar, e quando não o fazem sentem-se excluídas por estarem dentro do padrão de beleza vigente. (Araújo, 2010).

                   Araújo (2010) explica ainda o quanto é comum, hoje em dia, meninos e meninas manifestarem culpa por comer fast food. Ou ainda, acham que estão acima do peso e não se alimentam ou se alimentam de maneira errônea na tentativa de se adequarem aos padrões que a mídia nos impõe– a princípio, algo impensável para quem está na faixa dos oito anos.

                   Segundo Veiga (2010), percebe-se crianças expostas à riscos de competições e bombardeadas por informações cotidianas, e ainda, demonstram preocupação quanto à situação financeira dos pais, temem que percam seus empregos e consequentemente o status financeiro de antes. Percebe-se que os hábitos e valores infantis mudaram, todavia, a essência é a mesma – a de ser criança. Querem o que era desejado em épocas anteriores: ter boas notas, amigos, serem queridos e admirados, além de, atraentes a fim de garantir o amor dos pais, o que muda é a forma de como conseguir isso. O sonho dos pequenos, em sua maioria, é o da fama imediata, ter profissões de boa rentabilidade: jogador de futebol, artista, modelo, contudo, a vida se encarregará de convencê-los da falta de vagas para tanta celebridade.

                   Outro ponto polêmico da infância contemporânea esta relacionada à maquiagem, percebe-se, hoje, crianças maquiadas – nas escolas, em festas de aniversário ou mesmo em um simples passeio com a família, muitas delas exageradamente. Entretanto, a vaidade não se torne inquietante neste momento, o relevante está na maneira com que esses valores acercam nossas crianças. (ECHEVERRIA, 2004).

Gomes apud Echeverria (2004) traz:

Para as meninas, vestir-se e maquiar-se como a mãe não é o problema em si, dado que, até certo ponto, isso é normal, entretanto a valorização excessiva da beleza estética, bem como a crescente preocupação infantil com esse aspecto, tornam-se prejudiciais, haja vista que copiar modelo adulto é perfeitamente saudável, faz parte da infância. Mas é preciso saber diferenciar: criança não é miniadulto.

 

                                                             (GOMES apud ECHEVERRIA, 2004, p. 53)

 

                                  Oliveira (2004 apud NASCIMENTO e CRUZ, 2007) afirmam que, ao modo que uma criança veste-se diariamente, como um adulto, correr-se o risco da perda da identidade, uma vez que esta não tem maturidade física, ou emocional para tais atitudes. A vaidade infantil pode ser valorizada desde que não haja erotização. Uma sandália de salto tem representações sensuais e necessitam de análise. A criança poderá exprimir uma sensualidade que não possui maturidade para administrar, quiçá sentir prazer em seduzir o outro, o que não é próprio da idade. Oliveira (2004) apud Nascimento e Cruz, dizem ainda que uma criança não deveria deixar as atividades infantis em detrimento à beleza, uma vez que, sabe-se, o brincar é essencial para o  pleno desenvolvimento e sua ausência poderá causar prejuízos motores ou mesmo à saúde mental.

                        Segundo Gikovate (1998), a vaidade bifurca-se em duas características: chamar a atenção de outras pessoas e comprometer-se com a satisfação derivada da constituição dessa identidade. Por isso, pode-se concluir que, a vaidade como desejo exagerado de atração ou admiração implica no desenvolvimento infantil, no momento que a personalidade encontra se em construção. Isso se estenderá pela vida adulta e uma falha, por exemplo, nesta fase acarretará em comprometimentos psíquicos ou sociais.

1.1.    Consumismo: Exageros que acometem a infância

Percebe-se, atualmente, a mídia como relevante aliada ao consumo infantil, com músicas e bordões encantadores aos olhos infantis, ao passo que a criança consome a mídia apossa-se daquele objeto a fim de introduzi-lo no meio social da criança, não refletindo possíveis conseqüências. Desta maneira a criança passa a viver em um mundo adulto, por conseqüência são bombardeadas com responsabilidades irrelevantes ao mundo infantil.

 

O inconsciente se estrutura como uma linguagem, como uma cadeia de significante latente que se repete e interfere no discurso efetivo, como se houvesse sempre, sob as palavras, outras palavras, como se o discurso fosse sempre atravessado pelo discurso do Outro, do inconsciente. (LACAN, 2002 apud MUSSALIN, 2006)

 

                      De acordo com Lacan (2002), citado por Mussalim (2006), o inconsciente é uma forma de linguagem que interfere diretamente no cotidiano, é como se existisse alguém falando aos ouvidos daquele que pratica determinadas ações.
                       Para Althusser (1970) apud Hunther (2010), vive-se fazendo e ouvindo discursos. Muitas vezes desiguais, superiores, quiçá repressores. A classe dominante, por sua vez, para manter sua dominação, cria elementos que perpetuam e reproduzem as condições materiais, ideológicas e políticas. O que se vê, desde os primórdios, é uma classe minoritária, defendendo seus ideais e interesses em detrimento a uma classe, embora maior, sem voz ativa.
                      Assim, como afirma Althusser (1970) citado por Hunther (2010), encontramo-nos em meio aos discursos, cada qual à sua maneira, entretanto, todos com o mesmo objetivo, gerar mecanismos que seduzam o ouvinte, deixando-o vulnerável à dominação da elite. A prática social, por meio de ideologias, carrega em si a desconstrução de um modelo que represente valores das classes menos favorecidas. Surgindo assim, a relevância de se estudar gêneros específicos, como a propaganda, destinada ao público infantil, questionada pelas condições da cultura contemporânea, estabelecendo uma estreita ligação entre publicidade, valores sociais e o papel ideológico da mesma. (ALTHUSSER, 1970 apud HUNTHER, 2010)

                        Sabe-se, por meio da mídia, que a propaganda exerce um poder persuasivo sobre seus expectadores, manipulando-os a adquirirem um estilo de vida além de sua realidade. Hoje é nítido o desinteresse infantil por aquilo que lhes seria pertinente, o brincar passa a ser um hábito e o consumo exacerbado virou pura diversão. A televisão, nos dias de hoje, é o meio mais eficaz de sedução aos pequenos, uma vez que a propaganda atinge com maior facilidade seus objetivos, em contrapartida os pais têm dificuldades em driblar ou bloquear esta sedução, surgindo, desta forma, uma grande polêmica (HUNTER, 2010).                     

                        Entretanto, para uma propaganda ser bem sucedida, impreterivelmente conterá um texto com componentes linguísticos selecionados e será visualmente atraente aos olhos, principalmente, dos pequenos. Com tantos estímulos, como fazer com que a criança aprenda a distinguir quando seu super herói está à frente da própria mensagem. Percebe-se na infância o momento ideal para se fixar hábitos, é a partir desta ocasião que se constrói as bases do indivíduo, uma vez que é nessa fase que se estrutura a percepção, partindo desta premissa as propagandas têm inovado cada vez mais em suas apresentações. A maneira apelativa com que tratam o possível consumidor mirim acaba por trazer prejuízos à saúde, ao desenvolvimento do caráter e até da personalidade. (HUNTHER, 2010)

                        Como já afirmou Lacan (2002) citado por Hunther (2010), o inconsciente se estrutura como linguagem, o inconsciente nada mais é do que o discurso do outro, em sendo assim, o desejo é o desejo do outro. Por isso os publicitários, para criar suas campanhas, utilizam-se de resultados de testes que revelam, entre outros dados, os desejos irrefletidos nas crianças, com estruturas levianas sobre as quais se movem. A publicidade tem seu discurso baseado na ligação entre o inconsciente e o prazer que o produto remeterá à criança.

                        O garoto ou a garota entendem que só serão aceitos por este ou aquele grupo se adquirirem os produtos que são a “nova sensação do momento”. O sentimento de pertencerem a grupos, essencial para a construção da identidade, passa pela incorporação, em seu funcionamento mental, de aspirações homogêneas e do padrão de consumo que as atende. Devido a estes verdadeiros “bombardeios” de informações e estímulos, a criança é induzida a acreditar que os produtos de grife são sua identidade, sentindo-se assim poderosos e acabam, sem querer, se tornando propagandas sem custos, ou seja, se transformam em outdoors ambulantes. (HUNTHER, 2010).

                        Conforme Olmos (2009), citada por Hunther (2010) traz que, a criança, sem a noção exata, consome para dizer ao outro sobre ela própria, a fim de se identificar em um grupo. Desta maneira a criança, sem preceitos, deseja aquilo que lhe agrada e como se não bastasse, vive em constante insatisfação, perante a rapidez no lançamento de novas tecnologias, alimentos e vestimentas.

                        Outro fator relevante é a ausência dos pais, onde tentam compensar isto com presentes e acabam realizando os desejos de seus filhos, essas crianças por sua vez estão mais suscetíveis ao consumismo exagerado. Sabe-se que dar um basta radical nestes apelos infantis não é a melhor solução, de acordo com pedagogos e psicopedagogos a melhor forma de não sucumbir a todos os gostos é fazer acordos, combinados, ou seja, recompensar-lhes pela realização de missões cotidianas relevantes (HUNTHER, 2010).

                        Este tipo de atitude proporciona liberdade e responsabilidade, uma vez que para toda ação há uma reação, além de ser uma boa saída para o consumismo sem controle da nova geração. As crianças querem usar roupas e tênis de grife, pois neles estão expressos, simbolicamente, a que meio social se pertence, ou que a ele deseja pertencer, tudo isso está pautado no consumismo. É como se houvesse uma áurea envolvendo produto. Nesse jogo de interesses a criança cresce com um novo pensamento, com novas ideologias, ela deixa de “Ser” para “Ter” e passa a “Ter” para “Ser” (HUNTHER, 2010).