Infância Contemporânea… Compreenda antes de rotular.

Deparei-me, esta semana, com o seguinte enunciado: Cresce 75% uso de drogas para hiperatividade, fiz algumas leituras sobre o tema e resolvi compartilhar, afinal, este é um assunto de suma importância e deve estar ao alcance de todos. Esta foi uma pesquisa, inédita, realizada pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e revela uma assustadora realidade. O consumo de metilfenidato – encontrada com nomes comerciais de Ritalina, Ritalina LA ou Concerta – entre crianças de 6 a 16 anos cresceu 75% no país, entre os anos de 2009 e 2011. Esse levantamento foi realizado com bases nos dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). Tal medicamento age sobre o córtex pré-frontal, parte do cérebro localizada na testa que, segundo estudos, ao ser estimulado este lóbulo a pessoa consegue manter o foco e a atenção. É fato que esta patologia está presente em alguns casos, entretanto, será que está correto esse rótulo indiscriminado. Será mesmo que crianças ativas possuem o TDAH. De acordo com especialistas, este diagnóstico ocorre por meio da observação de comportamentos de impulsividade, inquietação, dificuldade de aprendizagem, ansiedade etc. Ele depende muito de relatos, de pais e professores, depende também de vários quesitos e a criança deve se encaixar em quase todos eles e ainda, o diagnóstico leva cerca de 6 meses para ser concluído, não há um exame laboratorial para detectá-lo.

            Vamos refletir um pouco…

Se pensarmos na criança e o meio que está inserida, talvez possamos adquirir um outro olhar sobre esta patologia, uma vez que a prática pedagógica é dominante e alfabetiza a criança, cada vez mais cedo, sem o brincar – primordial para a infância – este “brincar” só é permitido nas aprendizagens e em um contexto dirigido, deixando de lado toda a criatividade e liberdade que o brincar por brincar traz ao indivíduo. Atualmente, a criança vive cercada por grades, muros, tendo que se habituar a pequenos espaços, desta forma ela vai se condicionando e não há espaço para toda sua energia. Antigamente o chão era o limite, as crianças brincavam nas ruas, pulavam, corriam, subiam, caiam, os quintais eram acolhedores, cheios de “cantinhos” onde se deliciavam em sua imaginação, ora inventando situações, ora imitando os adultos a sua volta. Havia uma liberdade e ali toda energia era esgotada. A preocupação com a alfabetização era diferente, havia se um tempo de maturidade. Hoje há uma sobrecarga nos afazeres, há uma preocupação excessiva com a alfabetização precoce, há uma diminuição no espaço e no tempo livre. A infância, hoje, me parece vedada, ameaçada por turbilhões de elementos que fazem parte da fase adulta. Pais e professores, digo de experiência própria, não sabem o que fazer com tanta energia, com crianças tão ativas dentro de um contexto tolhedor, um sistema que mata de maneira cruel toda criatividade e liberdade de ação. E infelizmente somos induzidos, por ignorância (no sentido de desconhecimento) a rotular este ou aquele que não para, que corre o tempo todo, que literalmente “sobe no ventilador” ou mesmo aquele que está no mundinho dele, apático. Em alguns casos, vê se crianças ansiosas em demasia, pela projeção dos pais: “meu filho vai ser isto ou aquilo”, “meu filho deve sempre se sobressair”, “o mundo está tão competitivo que meu filho deve ser o melhor”, “nem pensar em tirar nota baixa, ai dele”… Infelizmente, nós, sem nos dar conta, podemos causar alguns problemas de comportamento: agressividade, impulsividade, inquietação etc.

            Não quero com este discurso eliminar as possibilidades de uma criança ser hiperativa, pelo contrário, há, segundo estudos, uma patologia e esta por sua vez deve ser diagnosticada e tratada (por profissionais capacitados para tal), pois sabe-se que causa muito sofrimento a quem acomete e a quem convive com o portador do transtorno. O que é relevante salientar é a questão do diagnóstico impreciso e da medicação indiscriminada. A quem pense que é mais fácil medicar/domesticar do que procurar entender, compreender o que se passa. É cômodo ir à farmácia e drogar nossas crianças rotuladas como diferentes, deixá-las calmas e “domadas”, a fim de encaixá-las nesta nova concepção de infância, neste novo perfil social.

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