Brincar de Gente Grande – Pensar e agir como adulto virou moda…

Atualmente, o universo infantil parece estar mudando, entre roupa e brinquedo a preferência nacional mirim, ao contrário do que se imagina, é pela roupa, da moda e de grife se possível. Assim mostra uma pesquisa realizada por conceituado canal de TV a cabo que, a maioria da meninada afirma que estar na moda é fundamental, além de se pensar em namorar (fato que no passado causava repudia), ser rica e famosa na fase adulta. A criança, hoje, desconhece as gerações de outrora, brincar faz parte do cotidiano, entretanto, não é uma questão primordial.

                   De acordo com Winnicott (1975, p.80) “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)”. Entende-se, por meio do autor, que a brincadeira desenvolve a criatividade, utilizando-se imprescindívelmente da personalidade, permitindo assim o autoconhecimento.

                 Para Froebel (1912,p.54-55): “Brincar é a fase mais importante da infância do desenvolvimento humano neste período – por ser autoativa representação do interno – a representação de necessidades e impulsos internos”. De acordo com a citação o brincar é algo essencial e não deve ser deixado de lado, como ocorre na contemporaneidade.

                   Froebel (1912) descreve ainda que:

 

(…) A brincadeira é a atividade espiritual mais pura do homem neste estágio e, ao mesmo tempo, típica da vida humana enquanto um todo – da vida natural interna do homem e de todas as coisas, ela dá alegria, liberdade, contentamento, descanso externo, paz com o mundo… A criança que brinca sempre, com determinação autoativa, perseverando, esquecendo sua fadiga física, pode certamente tornar-se um homem determinado, capaz de autosacrifício para a promoção de seu bem e de outros (…) (FROEBEL,1912,p.55)                                      

 

                   Por isso, a brincadeira faz parte do desenvolvimento cognitivo, psicomotor, cultural e social da criança, faz com que a criança se libere e liberte suas emoções, sendo assim, esta fase, não deve ser interrompida ou não vivenciada.

                   Contudo, vê-se que, atualmente, a boa aparência tornou-se prioridade na infância. Neste sentido, a psicóloga paulistana Ceres Alves de Araújo, professora da Universidade Pontifícia Católica de São Paulo, diz que para a criança andar na moda virou obrigação. Nesse contexto, ela deve vestir-se como o resto do grupo, a fim de assegurar seu lugar, e quando não o fazem sentem-se excluídas por estarem dentro do padrão de beleza vigente. (Araújo, 2010).

                   Araújo (2010) explica ainda o quanto é comum, hoje em dia, meninos e meninas manifestarem culpa por comer fast food. Ou ainda, acham que estão acima do peso e não se alimentam ou se alimentam de maneira errônea na tentativa de se adequarem aos padrões que a mídia nos impõe– a princípio, algo impensável para quem está na faixa dos oito anos.

                   Segundo Veiga (2010), percebe-se crianças expostas à riscos de competições e bombardeadas por informações cotidianas, e ainda, demonstram preocupação quanto à situação financeira dos pais, temem que percam seus empregos e consequentemente o status financeiro de antes. Percebe-se que os hábitos e valores infantis mudaram, todavia, a essência é a mesma – a de ser criança. Querem o que era desejado em épocas anteriores: ter boas notas, amigos, serem queridos e admirados, além de, atraentes a fim de garantir o amor dos pais, o que muda é a forma de como conseguir isso. O sonho dos pequenos, em sua maioria, é o da fama imediata, ter profissões de boa rentabilidade: jogador de futebol, artista, modelo, contudo, a vida se encarregará de convencê-los da falta de vagas para tanta celebridade.

                   Outro ponto polêmico da infância contemporânea esta relacionada à maquiagem, percebe-se, hoje, crianças maquiadas – nas escolas, em festas de aniversário ou mesmo em um simples passeio com a família, muitas delas exageradamente. Entretanto, a vaidade não se torne inquietante neste momento, o relevante está na maneira com que esses valores acercam nossas crianças. (ECHEVERRIA, 2004).

Gomes apud Echeverria (2004) traz:

Para as meninas, vestir-se e maquiar-se como a mãe não é o problema em si, dado que, até certo ponto, isso é normal, entretanto a valorização excessiva da beleza estética, bem como a crescente preocupação infantil com esse aspecto, tornam-se prejudiciais, haja vista que copiar modelo adulto é perfeitamente saudável, faz parte da infância. Mas é preciso saber diferenciar: criança não é miniadulto.

 

                                                             (GOMES apud ECHEVERRIA, 2004, p. 53)

 

                                  Oliveira (2004 apud NASCIMENTO e CRUZ, 2007) afirmam que, ao modo que uma criança veste-se diariamente, como um adulto, correr-se o risco da perda da identidade, uma vez que esta não tem maturidade física, ou emocional para tais atitudes. A vaidade infantil pode ser valorizada desde que não haja erotização. Uma sandália de salto tem representações sensuais e necessitam de análise. A criança poderá exprimir uma sensualidade que não possui maturidade para administrar, quiçá sentir prazer em seduzir o outro, o que não é próprio da idade. Oliveira (2004) apud Nascimento e Cruz, dizem ainda que uma criança não deveria deixar as atividades infantis em detrimento à beleza, uma vez que, sabe-se, o brincar é essencial para o  pleno desenvolvimento e sua ausência poderá causar prejuízos motores ou mesmo à saúde mental.

                        Segundo Gikovate (1998), a vaidade bifurca-se em duas características: chamar a atenção de outras pessoas e comprometer-se com a satisfação derivada da constituição dessa identidade. Por isso, pode-se concluir que, a vaidade como desejo exagerado de atração ou admiração implica no desenvolvimento infantil, no momento que a personalidade encontra se em construção. Isso se estenderá pela vida adulta e uma falha, por exemplo, nesta fase acarretará em comprometimentos psíquicos ou sociais.

1.1.    Consumismo: Exageros que acometem a infância

Percebe-se, atualmente, a mídia como relevante aliada ao consumo infantil, com músicas e bordões encantadores aos olhos infantis, ao passo que a criança consome a mídia apossa-se daquele objeto a fim de introduzi-lo no meio social da criança, não refletindo possíveis conseqüências. Desta maneira a criança passa a viver em um mundo adulto, por conseqüência são bombardeadas com responsabilidades irrelevantes ao mundo infantil.

 

O inconsciente se estrutura como uma linguagem, como uma cadeia de significante latente que se repete e interfere no discurso efetivo, como se houvesse sempre, sob as palavras, outras palavras, como se o discurso fosse sempre atravessado pelo discurso do Outro, do inconsciente. (LACAN, 2002 apud MUSSALIN, 2006)

 

                      De acordo com Lacan (2002), citado por Mussalim (2006), o inconsciente é uma forma de linguagem que interfere diretamente no cotidiano, é como se existisse alguém falando aos ouvidos daquele que pratica determinadas ações.
                       Para Althusser (1970) apud Hunther (2010), vive-se fazendo e ouvindo discursos. Muitas vezes desiguais, superiores, quiçá repressores. A classe dominante, por sua vez, para manter sua dominação, cria elementos que perpetuam e reproduzem as condições materiais, ideológicas e políticas. O que se vê, desde os primórdios, é uma classe minoritária, defendendo seus ideais e interesses em detrimento a uma classe, embora maior, sem voz ativa.
                      Assim, como afirma Althusser (1970) citado por Hunther (2010), encontramo-nos em meio aos discursos, cada qual à sua maneira, entretanto, todos com o mesmo objetivo, gerar mecanismos que seduzam o ouvinte, deixando-o vulnerável à dominação da elite. A prática social, por meio de ideologias, carrega em si a desconstrução de um modelo que represente valores das classes menos favorecidas. Surgindo assim, a relevância de se estudar gêneros específicos, como a propaganda, destinada ao público infantil, questionada pelas condições da cultura contemporânea, estabelecendo uma estreita ligação entre publicidade, valores sociais e o papel ideológico da mesma. (ALTHUSSER, 1970 apud HUNTHER, 2010)

                        Sabe-se, por meio da mídia, que a propaganda exerce um poder persuasivo sobre seus expectadores, manipulando-os a adquirirem um estilo de vida além de sua realidade. Hoje é nítido o desinteresse infantil por aquilo que lhes seria pertinente, o brincar passa a ser um hábito e o consumo exacerbado virou pura diversão. A televisão, nos dias de hoje, é o meio mais eficaz de sedução aos pequenos, uma vez que a propaganda atinge com maior facilidade seus objetivos, em contrapartida os pais têm dificuldades em driblar ou bloquear esta sedução, surgindo, desta forma, uma grande polêmica (HUNTER, 2010).                     

                        Entretanto, para uma propaganda ser bem sucedida, impreterivelmente conterá um texto com componentes linguísticos selecionados e será visualmente atraente aos olhos, principalmente, dos pequenos. Com tantos estímulos, como fazer com que a criança aprenda a distinguir quando seu super herói está à frente da própria mensagem. Percebe-se na infância o momento ideal para se fixar hábitos, é a partir desta ocasião que se constrói as bases do indivíduo, uma vez que é nessa fase que se estrutura a percepção, partindo desta premissa as propagandas têm inovado cada vez mais em suas apresentações. A maneira apelativa com que tratam o possível consumidor mirim acaba por trazer prejuízos à saúde, ao desenvolvimento do caráter e até da personalidade. (HUNTHER, 2010)

                        Como já afirmou Lacan (2002) citado por Hunther (2010), o inconsciente se estrutura como linguagem, o inconsciente nada mais é do que o discurso do outro, em sendo assim, o desejo é o desejo do outro. Por isso os publicitários, para criar suas campanhas, utilizam-se de resultados de testes que revelam, entre outros dados, os desejos irrefletidos nas crianças, com estruturas levianas sobre as quais se movem. A publicidade tem seu discurso baseado na ligação entre o inconsciente e o prazer que o produto remeterá à criança.

                        O garoto ou a garota entendem que só serão aceitos por este ou aquele grupo se adquirirem os produtos que são a “nova sensação do momento”. O sentimento de pertencerem a grupos, essencial para a construção da identidade, passa pela incorporação, em seu funcionamento mental, de aspirações homogêneas e do padrão de consumo que as atende. Devido a estes verdadeiros “bombardeios” de informações e estímulos, a criança é induzida a acreditar que os produtos de grife são sua identidade, sentindo-se assim poderosos e acabam, sem querer, se tornando propagandas sem custos, ou seja, se transformam em outdoors ambulantes. (HUNTHER, 2010).

                        Conforme Olmos (2009), citada por Hunther (2010) traz que, a criança, sem a noção exata, consome para dizer ao outro sobre ela própria, a fim de se identificar em um grupo. Desta maneira a criança, sem preceitos, deseja aquilo que lhe agrada e como se não bastasse, vive em constante insatisfação, perante a rapidez no lançamento de novas tecnologias, alimentos e vestimentas.

                        Outro fator relevante é a ausência dos pais, onde tentam compensar isto com presentes e acabam realizando os desejos de seus filhos, essas crianças por sua vez estão mais suscetíveis ao consumismo exagerado. Sabe-se que dar um basta radical nestes apelos infantis não é a melhor solução, de acordo com pedagogos e psicopedagogos a melhor forma de não sucumbir a todos os gostos é fazer acordos, combinados, ou seja, recompensar-lhes pela realização de missões cotidianas relevantes (HUNTHER, 2010).

                        Este tipo de atitude proporciona liberdade e responsabilidade, uma vez que para toda ação há uma reação, além de ser uma boa saída para o consumismo sem controle da nova geração. As crianças querem usar roupas e tênis de grife, pois neles estão expressos, simbolicamente, a que meio social se pertence, ou que a ele deseja pertencer, tudo isso está pautado no consumismo. É como se houvesse uma áurea envolvendo produto. Nesse jogo de interesses a criança cresce com um novo pensamento, com novas ideologias, ela deixa de “Ser” para “Ter” e passa a “Ter” para “Ser” (HUNTHER, 2010).

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VAIDADE OS GRANDES MITOS SUCUBIRAM A ELA

 Assim afirma Gikovate (1987) que tão antiga quanto à história do homem é a história da vaidade. Quantos palácios ou monumentos não foram erguidos apenas por vaidade: como demonstração de força e poder. Quantos não sucumbiram para atender a vaidade de um só. Sabe-se que, ao longo da história, a vaidade está presente em todos   os segmentos e civilizações. Conforme Ferreira (2001), vaidade significa: qualidade do que é vão; desejo imoderado de atrair admiração; frivolidade, fatuidade e presunção. Percebe-se pela própria descrição do dicionário que, a vaidade tem conotação pejorativa, ou seja, a vaidade, em excesso, pode se transformar em algo ruim, desagradável e porque não, prejudicial. A razão se cala perante a vaidade tornando tolo o sábio, o altruísta em egoísta.

                        Segundo Gikovate (1987):

Tudo se interrelaciona, todos os processos biológicos, psicológicos e racionais se imbricam de tal forma que se tornam muito pouco evidentes os contornos de cada ingrediente. E com a vaidade a coisa é pior ainda, pois ela está presente em tudo. Porém, pela natureza da sensação que sua satisfação provoca, creio que podemos localizá-la, originalmente como uma das manifestações do instinto sexual. (GIKOVATE, 1987, p. 15)

 

                        A citação acima vem ao encontro e reafirma aquilo que já havia sido relatado inicialmente: a vaidade está em tudo, pois provoca uma sensação de prazer e sua origem está na sexualidade.

1.1.    Razão – Mediador entre necessidade e desejo

Segundo Hegel (1770 a 1831), filósofo alemão, representante do idealismo no século XIX, “a razão rege o mundo, a história transcorre racionalmente, mas a razão que se manifesta ou revela na história é a razão divina absoluta. É a razão que constitui a história. Ela é parte do nosso mundo psíquico e se relaciona com os anseios e necessidades do corpo. Sabe-se que, de uma forma geral, durante o crescimento físico e de abastecimento da razão o indivíduo depara-se com inúmeros reveses ou vitórias.

                  A esse respeito Gikovate (1987) afirma que:

            A razão, com seu papel de mediador entre as necessidades e desejos internos e as possibilidades da realidade exterior e os valores da reflexão moral, dificilmente conseguirá exercer sua função de modo puro; estará sempre influenciada pela ânsia de destaque e pelo pavor da humilhação. Isto poderá levá-la a terríveis erros na reflexão e decisão acerca das várias atitudes que temos que tomar ao longo da vida. (GIKOVATE,1987, p.48)

 

              A vaidade expressa aspirações de poder e imortalidade com que rege o homem ante o medo da nulidade. Quanto mais angústias advindas da passagem do tempo, maior a tendência de buscar na vaidade uma ilusória satisfação. Por isso, a solução mais sensata ante a vaidade é a segurança interior: a autoestima. Mais que gostar de si mesmo, é estar em harmonia, em equilíbrio consigo e com os ditames da vida. Há uma pequena linha separando a vaidade da autoestima, enquanto a primeira depende de festejos alheios, a segunda é uma atitude de cuidado e autopreservação. (GIKOVATE,1987)

            Conclui-se que, àquele indivíduo que cultiva a autoestima, sem grandes preocupações com sua imagem perante o outro é capaz de discernir seu contato com o mundo, os bons e maus momentos, plenamente.

1.2.    Vaidade – Um olhar ao estímulo à higiene pessoal

 Conforme citado por Gikovate (1987), em texto anterior, há entre a vaidade e a autoestima uma pequena diferença. Partindo dessa premissa pode se afirmar que, uma autoestima equilibrada ou até mesmo uma vaidade natural de querer estar bem, faz com que o indivíduo se valorize , culminando assim, em cuidados com a aparência e a higiene pessoal sem exageros. Alguns destes cuidados são essenciais ao convívio social, adulto e infantil. Os odores exalados pelo corpo podem, de certa forma, afetar os relacionamentos interpessoais, além de acarretar doenças, principalmente de pele: dermatoses, impetigo, larva geométrica ou a micose de praia, por isso, é primordial manter uma boa higiene pessoal, a fim de se evitar problemas futuros. (BRASIL/MEC,1998)

              Sabe-se que o banho diário, com água e sabão, é um valioso ensinamento aos nossos pequenos. É por meio do cultivo de bons hábitos dos genitores que a criança aprende a cuidar de si. Faz-se necessário que a criança aprenda, desde cedo, os cuidados com a higiene pessoal: escovar os dentes, usar fio dental, lavar os cabelos – evitando assim, o mau cheiro, problemas no couro cabeludo e até mesmo parasitas – entre outros. Deste modo, o Referencial Curricular Nacional (1998) traz:

 

A aprendizagem dos movimentos para uma correta escovação dos dentes e da língua, usar o fio dental, bochechar e cuspir a água, é construída pela observação e orientação do adulto e pela própria experiência da criança ao ter oportunidade de manusear esses materiais e a água. (BRASIL/MEC, 1998, p. 46.)

 

              Cuidados com a limpeza do nariz e garganta, também são essenciais. A coriza, geralmente, está presente no cotidiano infantil, devido ao contato com inúmeros fatores causadores de alergias, por isso, a criança deve ser estimulada a fazer a limpeza correta, evitando assim o incômodo do nariz sujo. Por fim, deve dar atenção especial às extremidades corporais: pés e mãos, mantendo-os limpos, secos e com as unhas aparadas.

                   Assim, segundo o Referencial Curricular Nacional (BRASIL/MEC, 1998)

 

A higiene das mãos constitui-se um recurso simples e eficiente entre as atitudes e procedimentos básicos para a manutenção da saúde e prevenção de doenças. É sempre bom lembrar que os adultos servem de modelo para as crianças que observam suas atitudes e por isso é aconselhável que eles também lavem as mãos, sempre que necessário. (BRASIL/MEC,1998,p.3)

 

                   Conforme citação acima é primordial a higiene das mãos, uma vez que esta, constantemente, é levada à boca, tais atitudes previnem uma série de doenças. Percebe-se que, o brincar é essencial para o desenvolvimento infantil, todavia, é relevante que, ao término das brincadeiras a criança faça a higiene corporal, uma vez que esta é uma atitude essencial, ou melhor, uma vaidade natural.