Consumismo – Exageros que acometem as crianças

Lacan assume que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, como uma cadeia de significante latente que se repete e interfere no discurso efetivo, como se houvesse sempre, sob as palavras, outras palavras, como se o discurso fosse sempre atravessado pelo discurso do Outro, do inconsciente.

Fernanda Mussalim (2006)

 De acordo com Lacan, citado por Fernanda Mussalim, o inconsciente é uma forma de linguagem que interfere diretamente no cotidiano, é como se uma alguém falando aos ouvidos daquele que pratica determinadas ações.
“Vivemos fazendo e ouvindo discursos. Muitos deles desiguais, superiores, repressores. A classe dominante, para manter sua dominação, gera mecanismos que perpetuam e reproduzem as condições materiais, ideológicas e políticas.” – Althusser (1970).
Assim, como afirma Althusser, encontramo-nos em meio aos discursos, cada qual à sua maneira, entretanto, todos com o mesmo objetivo, gerar mecanismos que seduzam o ouvinte, deixando-o vulnerável à dominação da elite. A prática social, por meio de ideologias, carrega em si a desconstrução de um modelo que represente valores das classes menos favorecidas. Surgindo assim, a relevância de se estudar gêneros específicos, como a propaganda, destinada ao público infantil, questionada pelas condições da cultura contemporânea, estabelecendo uma estreita ligação entre publicidade, valores sociais e o papel ideológico da mesma.

Sabe-se que a propaganda exerce um poder persuasivo sobre seus expectadores, manipulando-os à adquirirem um estilo de vida além de sua realidade. Atualmente é nítido o desinteresse infantil por aquilo que lhes seria pertinente, o brincar passa a ser um hábito e o consumo exacerbado virou pura diversão.

A televisão, atualmente, é o meio mais eficaz de sedução aos pequenos, pois é onde a propaganda atinge com maior facilidade seus objetivos, em contrapartida os pais têm dificuldades em driblar ou bloquear esta sedução, surgindo, desta forma, uma grande polêmica. De acordo com a Presidenta do Instituto Alana, de São Paulo, Ana Lúcia Villela, “as crianças ainda não conseguem criar juízos de valores sobre o que veem na televisão. Até os seis anos de idade elas não sabem o que é comercial ou propaganda.

Entretanto, sabe-se que, para uma propaganda ser bem sucedida, deve conter um texto com componentes linguísticos selecionados e deve ser visualmente atraente aos olhos, principalmente, dos pequenos. Com tantos estímulos, como fazer com que a criança aprenda a distinguir quando seu super herói está à frente da própria mensagem. Percebe-se que a infância é a época mais tranquila de se fixar hábitos, uma vez que é nessa fase que se estrutura a percepção, partindo desta premissa as propagandas têm inovado cada vez mais em suas apresentações. A maneira apelativa com que tratam o possível consumidor mirim acaba por trazer prejuízos à saúde, ao desenvolvimento do caráter e até da personalidade.

Como já afirmou Lacan (2002) o inconsciente se estrutura como linguagem, o inconsciente nada mais é do que o discurso do outro, em sendo assim, o desejo é o desejo do outro. Por isso os publicitários, para criar suas campanhas, utilizam-se de resultados de testes que revelam, entre outros dados, os desejos irrefletidos nas crianças, com estruturas levianas sobre as quais se movem. A publicidade tem seu discurso baseado na ligação entre o inconsciente e o prazer que o produto remeterá à criança.

O garoto ou a garota entendem que só serão aceitos por este ou aquele grupo se adquirirem os produtos que são a “nova sensação do momento”. O sentimento de pertencerem a grupos, essencial para a construção da identidade, passa pela incorporação, em seu funcionamento mental, de aspirações homogêneas e do padrão de consumo que as atende. Devido a estes verdadeiros “bombardeios”de informações e estímulos, a criança é induzida a acreditar que os produtos de grife são sua identidade, sentindo-se assim poderosos e acabam, sem querer, se tornando propagandas sem custos, ou seja, se transformam em outdoors ambulantes.

Conforme a psicanalista Ana Olmos (2009), “as crianças, sem perceber, consomem para dizer ao outro sobre elas próprias, para dizer para elas próprias quem são.”

Outro fator relevante é a ausência dos pais, onde tentam compensar isto com presentes e acabam realizando os desejos de seus filhos, essas crianças por sua vez estão mais suscetíveis ao consumismo exagerado. Sabe-se que dar um basta radical nestes apelos infantis não é a melhor solução, de acordo com o economista e colunista da Revista Época e da Rádio CBN, Mauro Halfeld, relevante “é fazer um bom acordo com as meninas e os meninos. Usar um desses produtos que eles querem como recompensa para as missões importantes, como por exemplo, um excelente resultado na escola, ou uma bela arrumação no quarto. Não estabelecer missão fácil e fugir dos prêmios mais caros”. Esta segundo o economista é uma boa saída para o consumismo sem controle da nova geração.

As crianças querem usar roupas e tênis de grife, pois neles estão expressos, simbolicamente, a que meio social se pertence, ou que a ele deseja pertencer, tudo isso está pautado no consumismo. É como se houvesse uma áurea envolvendo produto. Nesse jogo de interesses a criança cresce com um novo pensamento, com novas ideologias, ela deixa de “Ser” para “Ter” e passa a “Ter” para “Ser”.

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